SOBRE MAGIA, OCULTISMO E MAÇONARIA

“A Maçonaria tem pôr fim a investigação da Verdade, o culto da Moral e a prática da solidariedade; incentivar o progresso intelectual e social da Humanidade; estender a todos os homens os elos fraternais que unem os maçons na superfície do Globo, lutando, incessantemente, contra todas as manifestações de ignorância, fanatismo e superstição, que são os maiores males que afligem a Humanidade”

A definição de Maçonaria apresentada acima alinha-se com a concepção tradicional da Ordem, apresentada desde suas origens britânicas e suas ideias encontram-se nas constituições e regulamentos gerais de diferentes Obediências, ainda que com formulações adaptadas e palavras diferentes.

Ela afirma o ideal maçônico superior da Fraternidade, da valorização da livre investigação da verdade pelo uso da razão e dos efeitos deletérios da superstição e do fanatismo.

A MAÇONARIA PRATICA MAGIA?

Para procurar resposta para essa pergunta, é necessário entender o significado dessa palavra. Nos dicionários encontramos que “Magia” é a:

“Arte ou prática baseada na crença de ser possível influenciar o curso dos acontecimentos e produzir efeitos não naturais, valendo-se da intervenção de seres fantásticos e da manipulação de algum princípio oculto supostamente presente na natureza, seja por meio de fórmulas rituais ou de ações simbólicas”.

E… MAGIA EXISTE?

Em geral todos nós somos filiados a uma das religiões ou grupo místico/religiosos existentes. Essas diferentes instituições entendem a realidade universal composta tanto por aspectos empíricos, como também por aspectos trans empíricos, metafísicos.

Cada uma delas define sua compreensão da realidade transcendentes à sua maneira, dentro de seu acervo de doutrinas e crenças. Assim, estamos habituados aos relatos de curas e experiências insólitas situadas nessa área incerta, indefinida, das ocorrências inexplicáveis dentro dos parâmetros da ciência, do racional.

Experimenta-se o poder da fé e a cada dia descobre-se mais interrelações entre as disposições psico/espirituais e as reações físico/emocionais. Paradoxalmente, nossa cultura atual ainda que imersa nos produtos tecnológicos e descobertas cada vez mais abrangentes da ciência, experimenta em alguns de seus diferentes grupos e divisões componentes, uma ânsia pelo maravilhoso, pelo mágico.

Observamos o surgimento e crescimento de cultos que incentivam essa aspiração pelo controle dos eventos palpáveis por métodos simples que tenham resultados transcendentes.

Tornou-se popular a utilização, a princípio metafórica, de fenômenos assombrosos descobertos pela ciência, ocorridos no interior dos elementos. Com o tempo esses conceitos perderam, para muitos, seu caráter metafórico e começaram a ser entendidos como possíveis descrições do mundo macroscópico. Independentemente de sua associação original a fenômenos que ocorrem apenas em circunstâncias especiais de âmbito limitado, seus efeitos foram estendidos e associados a todos os aspectos da área limítrofe entre a realidade e a fantasia.

Deste modo, o princípio que estabelecia a observação científica, com seu aparato instrumental, interferindo na realidade do mundo atômico e nas respostas que recolhia, tornou-se para o público a afirmação de que a consciência do observador altera a realidade observada.

E atribuem a essa distorção interpretativa fundamento científico!

Apesar das experiências comentados acima sobre a inexplicável e incompreendida interface entre o transcendente e o natural, palpável, sua utilização e domínio não é tão simples como certas concepções doutrinárias querem fazer crer.

Um físico Indiano trabalhando nos EUA escreveu artigos e livros em apoio a essa interpretação metafórica de eventos atômicos, desencadeando doutrinas e interpretações espirituais da Física Quântica, que, para os físicos tradicionais, descreve apenas fenômenos ocorridos a nível atômico. Os colegas do cientista indiano fizeram-lhe uma proposta drástica para testar a afirmação que a consciência do observador altera a realidade:

“Salte de um edifício de 20 andares, e com sua consciência, modifique a realidade para chegar ao solo sem qualquer dano.”

Obviamente, o desafio não foi aceito, pois cabe aqui também aquela pequena frase: “Não é bem assim”.

Para os adeptos dessa ideia, eu tenho duas propostas bem mais discretas e simples, sem o “glamour” hollywoodiano do salto do edifício: segure entre seus dedos uma mecha, alguns fios, ou mesmo um único fio de seus cabelos e, utilizando apenas sua vontade/consciência, faça com que mude de cor.

Ou então, mais simples, acenda uma vela, protegida de correntes de ar e, sem usar qualquer artifício físico, mas apenas sua vontade, faça a chama aumentar e oscilar, para um lado e outro, segundo sua vontade.

Conheço alguém que diz ter obtido sucesso com a segunda experiência.

Os filmes de magia, como Harry Potter e os de super-heróis, com poderes também mágicos fazem imenso sucesso e contribuem na formação do imaginário popular. A rede mundial de comunicação, internet tem contribuído de modo decisivo na divulgação e ampliação das crenças nesses aspectos místico esotéricos da realidade.

Pouco a pouco distanciam-se, tendendo a sumir no horizonte, ou a se confundir, limites entre conceitos de superstição, fantasia e realidade.

Lembrando o que dizem os dicionários: Superstição é Crendice; crença sem fundamento racional e lógico que faz com que alguém crie certas regras singulares, tenha medo de coisas inofensivas ou acredite em coisas sem fundamento.

Como foi citado no início deste texto, muitos documentos maçônicos associam superstição à ignorância e fanatismo, considerando-os: … “Os maiores males que afligem a humanidade”.

Observe-se que a Maçonaria exige que para serem iniciados, os candidatos JÁ POSSUAM A CRENÇA no Grande Arquiteto do Universo.

Ela não desenvolve qualquer procedimento para induzir essa crença, facilitar o acesso ou proximidade do homem com Deus. A Ordem busca homens que JÁ TENHAM essa proximidade e assim estejam mais qualificados para desenvolver seus ideais de fraternidade.

Essa proximidade, já terá sido adquirida pessoalmente, segundo os preceitos das religiões que cada um livremente pratica.

É nelas, as religiões individuais, que ocorre o desenvolvimento espiritual dos maçons, não nas reuniões de loja, onde não se pratica qualquer culto religioso.

Portanto, não existe uma “Espiritualidade maçônica” específica, pois a Maçonaria não possui ensinamentos com esse conteúdo nem procedimentos com esse objetivo. Nas sessões em Loja os maçons se reúnem para conviver fraternalmente, desenvolver e aplicar seu conhecimento da arte real, da história e filosofia da Instituição.

Um dos fatores que contribuem para os equívocos interpretativos é a adoção pela Maçonaria de expressões de cunho religioso, como “Templo”, “Ritualística”, “Liturgia”, se bem que esses termos também sejam utilizados fora do contexto religioso.

Fala-se, por exemplo de um estádio como “Templo dos Esportes”; de uma biblioteca, como “Templo do Conhecimento”, comenta-se que juízes e advogados devem “Respeitar a Liturgia do Cargo”.

Não obstante o posicionamento oficial maçônico sobre o tema, muitos autores maçons interpretam procedimentos e símbolos maçônicos à luz de ensinamentos de outras instituições, tirando delas conclusões e doutrinas que tangenciam e por vezes mergulham, nos conceitos de superstição e fanatismo.

O uso repetido dessas interpretações, muitas vezes acaba por incorporá-las nas práticas de várias lojas e ensinadas como se fossem ensinos maçônicos.

Assim, fala-se de “Egrégoras” e efeitos mágicos da “Cadeia de União”, entre outras considerações de caráter mágico/ocultista.

Em primeiro lugar, “Egrégora” não é conceito ou ensino maçônico. Trata-se de enxerto importado de grupos espiritualistas e tem raízes em religiões orientais.

Quando comento que determinado conceito não é maçônico, não entro no mérito da análise de sua suposta realidade, se ele é, necessariamente equivocado ou fantasioso.

Reporto-me simplesmente, ao fato de que ele não está contido nos ensinos maçônicos tradicionais.

Isto é, não se encontra no acervo de conteúdo das iniciações e instruções correspondentes (ao menos naquelas que não tiverem sofrido inserções drásticas), que é a maneira tradicional pela qual a maçonaria apresenta seus ensinamentos.

A Maçonaria tradicional não se ocupa do tema.

AS INICIAÇÕES MAÇÔNICAS SÃO ATOS MÁGICOS?

Alguns autores sugerem transformações, renascimentos, acesso a níveis superiores de consciência e especiais conhecimentos, produzidos pelas iniciações.

A Sociedade Teosófica tem como lema um pensamento que creio ser uma unanimidade:

“Não há Religião Superior a verdade.”

Obviamente, existem controvérsias a respeito do conteúdo de verdade em diferentes conceitos e doutrinas. Mas podemos adaptar esse pensamento e dizer:

“Não Existe Afirmação Superior a Verdade.”

Isto é, devemos sempre examinar o possível conteúdo de verdade em diferentes afirmações feitas a respeito da Maçonaria.

Verdadeiras serão aquelas que corresponderem aos fatos.

Então vejamos:

AS INICIAÇÕES MAÇÔNICAS TRANSFORMAM OS INICIADOS?

É verdade que muitos iniciandos concentram-se profundamente nos procedimentos da cerimônia e assimilam o significado de seus princípios e propostas a ponto de se emocionarem quando da sua conclusão.

Mas isso é totalmente diferente das supostas transformações com aquisições de poderes comumente descritas.

Se todos iniciados saíssem transformados da cerimônia de iniciação, como se sugere, a maçonaria seria coerentemente acusada de utilizar métodos de lavagem cerebral agindo sobre os indivíduos independentemente de suas vontades. E todos os iniciados seriam igualmente transformados. Ora conhecemos casos de maçons que não assimilaram princípios maçônicos, e alguns chegam mesmo a serem expulsos da Ordem (existem os chamados “Profanos de Avental”).

Logo, não existe essa transformação compulsiva.

Na verdade, a maçonaria não possui nenhum método coercitivo para impor ensinamentos ou comportamentos aos seus filiados. Ela tem como uma das exigências para a iniciação, que o candidato seja LIVRE e de bons costumes. As iniciações simplesmente apresentam aos candidatos princípios e ensinos da Instituição e os incentiva a pô-los em prática.

E QUANTO A TRANSMISSÃO DE PODERES?

Ora, só poderia transmitir poderes quem já fosse possuidor de tais dons. Quem os possui?

Entre os ensinos maçônicos não existe nenhum tipo de exercício para desenvolvimento de atributos psico/místico/espirituais, com objetivo de alcançar especiais percepções ou poderes para realizar maravilhas.

E QUANTO À REVELAÇÃO DE VERDADES TRANSCENDENTES?

Os maçons que já passaram pelas iniciações sabem que tais revelações especiais não existem e os rituais estão ao seu alcance, permitindo a qualquer momento rever todos os procedimentos, ensinamentos e símbolos neles contidos.

O ideal do aperfeiçoamento maçônico é tido como um trabalho consciente, árduo e determinado, que dura toda a vida do maçom que se empenha em eliminar aspectos negativos de sua atuação e personalidade e melhorar mesmo o que já está bom.

Seria impossível alcançar esse aperfeiçoamento em uma cerimônia, por mais bem elaborada e executada que fosse.

A Maçonaria apresenta seus ensinamentos por meio de iniciações aos diferentes graus e suas correspondentes instruções.

Estas, abordam apenas os temas dentro do escopo de interesse maçônico, que não incluem descrições do Além, teorias cosmogônicas sobre a origem do Universo nem sobre a natureza do Ser, e não coincidem com objetivos e ensinos de diferentes instituições que possuem esse tipo de instruções.

A Maçonaria defende o livre pensar e a livre expressão do pensamento

Seguindo esse princípio, se assim desejar, qualquer maçom pode dedicar-se ao estudo desses temas não abordados pelos ensinos maçônicos, buscando literatura ou contato com grupos que os desenvolvam. Mas nenhum maçom deve trazer esses conhecimentos de outras instituições nem tentar inseri-los entre os ensinos maçônicos.

Estas são comumente encontradas em escritos de maçons místicos e apresentadas como sendo concepções alcançadas apenas por poucos maçons, aqueles mais espiritualizados, que alcançam o “verdadeiro” significado da Maçonaria.

Ora, essa formulação estimula a vaidade de pertencer a uma casta de “Maçons especiais”, quando, na verdade, nada mais é do que uma versão adaptada da antiga fábula da “Roupa Nova do Rei”: “Só quem for inteligente e de origem nobre, pode ver e apreciar a “Roupa Nova” do rei”, que na verdade, estava nu!

Quanto a isso, algumas considerações são necessárias. Entre os maçons que adotam interpretações místicas da Maçonaria, nunca encontrei um único que seja, que tenha aprendido as interpretações que adota NA Maçonaria. Sempre estão em uma das seguintes categorias: são maçons espíritas, rosa-cruzes, leitores de textos teosóficos ou cabalistas, e interpretam símbolos e procedimentos maçônicos segundo as doutrinas das escolas de pensamento citadas.

Lembrando o que foi dito acima, não entro no mérito das doutrinas dessas instituições. Nada tenho contra elas, pelo contrário, conheço e aprecio algumas de suas formulações.

Apenas ressalto que seus ensinos não podem ser apresentados como maçônicos se não são abordados nos documentos maçônicos tradicionais.

Quanto à “Cadeia de União”, tema de descrições de aspectos mágicos por alguns autores, seu objetivo maçônico é claramente determinado: transmitir a palavra semes tral, ou reforçar o ideal de fraternidade da Loja.

Como a expressiva maioria dos maçons têm tendências religiosas, e no Brasil, a também expressiva maioria das religiões são variações do cristianismo, alguns utilizam o momento, para fazer preces em favor de irmãos ou familiares doentes. Mas essa atividade não é prescrição maçônica.

No que se refere ao sinal de socorro, outro procedimento com interpretações destorcidas, sua definição e ensino é clara: dirige-se aos outros maçons, “Filhos da Viúva”, não a uma suposta “Fraternidade Branca” de maçons falecidos.

Um irmão de minha loja, dirigindo à noite em certa ocasião, teve um contratempo e foi obrigado a parar na estrada. Fez o sinal e logo um maçom estacionou a seu lado e o socorreu.

Conheço o caso de um irmão do GOBSC, que teve sua carteira furtada em um aeroporto nos EUA. Também fez o sinal, e logo foi atendido por um maçom, que até lhe emprestou 100 dólares, os quais lhe foram enviados após a chegada do irmão socorrido ao Brasil.

Esses aspectos místico/ocultistas são interpretações de alguns autores, cujos ensinos, pela repetição sem contestação, acabam equivocadamente aceitos como se fossem maçônicos.

A ausência de contestação pode ser atribuída a dois aspectos. O primeiro, falta de conhecimento maçônico do tema; o segundo, ao entendimento equivocado do princípio de tolerância, pois este não se aplica a compactuar com o erro.

Esses autores confundem a legítima liberdade de adotar as concepções metafísicas que preferirem, com sua apresentação como doutrina maçônica, o que é inadmissível.

Assim, doutrinas/ensinamentos maçônicos são aqueles temas abordados e desenvolvidos nos rituais de graus tradicionais reconhecidos pela comunidade maçônica (“Meus irmãos como tal me reconhecem”, lembram?). Todos os outros conceitos e descrições, por mais significativos, belos, profundos e supostamente verdadeiros que sejam, se não forem abordados nos referidos graus, não são parte do acervo de ensinos maçônicos, por maior que seja o “pedigree” dos autores que os utilizem.

Autor: Eleutério Nicolau da Conceição

Eleutério é Mestre Instalado, obreiro da ARLS Alferes Tiradentes Nº 20, oriente de Florianópolis, da GLSC; membro da Academia Catarinense Maçônica de Letras; membro fundador da Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras (2021); autor das seguintes obras: Maçonaria, Raízes Históricas e Filosóficas; Maçonaria no Mundo e na Sociedade; O Grau de Aprendiz e seus Mistérios. Em coautoria com Walter Celso de Lima: Dueto Sobre Sabedoria, Força e Beleza; Reflexões Históricas e Filosóficas.

Nota

  1. Definição presente, com diferentes formulações, em Constituições de múltiplas obediências. 

 

 

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